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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

ESCUTAR FILTRANDO AS INFORMAÇÕES

 


Ouvir apenas uma versão dos fatos é algo que pode nos levar a uma realidade particular. 

Todos contam os fatos como interpretam ou como se lembram e isso pode não corresponder a como os outros envolvidos se lembram.

Ouvi esta semana uma estória feia que se passou há muitos meses e a pessoa me contou com muita tranquilidade e como se tivesse tido essa mesma calma quando aquilo aconteceu. Ficou difícil acreditar que alguém tivesse reagido de forma tão contida como ele descreveu e perguntei apenas se ele não tinha levantado a voz e ouvi que levantou sim. 

Ou seja, a participação dele nos fatos foi mais intensa do que ele descreveu. Aquilo não me afeta em nada. Eu só estava ouvindo o que ele quis contar.  Eu só encontrei com ela duas vezes e não conversamos muito. 

Com ele eu me encontrava uma vez todos os meses para um café e um acerto de contas e agora entendo o motivo desse acerto nesses últimos meses estar sendo feito pelo telefone. 

Eu não gostaria de viver o que ele viveu e o que ainda está vivendo e acho que ele ficaria sem graça de vir para o café e não falar do assunto. Eu não dou opinião sem ser solicitado mas ele já pediu e eu dei noutro assunto e sempre tivemos conversas sobre assuntos pessoais e acho que ele ainda não estava pronto para essa. 

Eu não sou curioso e se isso não fez falta para ele é porque estava tendo o suporte e as conversas das quais precisava.

Eu não gosto de confrontos barulhentos, gritaria ou coisa do gênero. Eu aprendi, mesmo que eu esteja fervendo por dentro a manter a calma e agir tranquilamente por fora. Isso deve  incomodar muito a quem não consegue fazer a mesma coisa.

Admiro muito uma pessoa que mesmo tendo uma discussão séria com o marido se mantém falando baixinho o tempo todo. Já a elogiei por isso algumas vezes para algumas pessoas.

Como sempre, quando observo alguma situação melindrosa, me pergunto se não estou fazendo a mesma coisa.

A melhor pessoa para falar a respeito de você mesmo não é você, mas sim alguém que conviveu muito com você, como uma ex-mulher. 

Ninguém pode falar mais a respeito do meu comportamento do a minha ex. Deve ter uma visão mais realista e talvez menos bondosa comigo mesmo que eu. 

Mas sempre me vem à lembrança o comentário de uma irmã de que nunca havia ouvido ela falar uma palavra de ruim a meu respeito. A recíproca é verdadeira e não porque eu sou bonzinho, mas porque ela não fez por merecer. E isso não quer dizer que tivemos um casamento perfeito, mas mesmo depois de tantos anos ainda posso dizer que foi um casamento invejável.

Pelo menos posso fazer uma afirmação categórica: Sou muito mais capaz de machucar com a verdade do que com uma mentira. 

Estou tentando não ser tão brutalmente honesto e conseguir ficar calado, muitas vezes sem conseguir, mas tenho um problema sério com a mentira ou agir para manter aparências. 

Com o passar dos anos tenho uma dificuldade cada vez maior em mentir, mesmo em meu benefício e sei que coloco em situação incômoda algumas pessoas que ficam escondendo verdades em nome da discrição ou do fazer de conta. 

Eu sou a pessoa que preserva tudo que pode servir para dirimir dúvidas no futuro porque a memória é traiçoeira e tendenciosa e o que ficou escrito não deixa margem para interpretação.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

MINHA VIDA NÃO É PERFEITA.

 


Nem eu.

Eu sou um otimista e tento evitar falar de coisas ruins. Não é que elas não aconteçam. Eu falo das quais não consigo evitar.

Isso pode fazer com que algumas pessoas pensem que na minha vida não existem problemas. Existem, mas eu valorizo mais as coisas boas ou engraçadas do que as que não são.

A melhor definição de chato que eu ouvi na minha vida é "uma pessoa que você pergunta "Como vai?" e ela explica."

Da maior parte das coisas que são ruins ou não são do meu agrado eu tento não falar ou escrever. Problemas são para serem conversados com pessoas com as quais você tem muita intimidade.

É melhor responder "Tudo bem", que explicar o que não está. Ninguém quer ouvir dos seus problemas. As outras pessoas querem coisas leves e os problemas nos quais elas estão interessadas não são os seus.

Coisas desagradáveis acontecem e me incomodam, mas acho que não precisam incomodar ou ser desagradáveis para os outros.

Também prefiro falar daquilo que mostra que eu me tornei uma pessoa melhor, que falar dos tantos erros que cometi para chegar até aqui. Gosto mais dos defeitos que eu consegui diminuir do que dos quais não consegui me livrar. 

Assim como lembro de coisas boas, lembro e relembro de bobagens que cometi em todos os campos e de erros que eu preferia não ter cometido mas que certamente serviram para meu aprendizado.

Mas o balanço é bom. 

Errei muitas vezes mas acertei muitas outras vezes e, mesmo que não tenha conseguido, sempre procurei ser justo. É claro que posso estar errado, mas com o passar do tempo me percebo como uma pessoa melhor, o que já é uma grande conquista.

LEMBRANÇAS DA RUA PINHEIRO MACHADO 80

 


Moramos num prédio na Rua Pinheiro Machado e quando saímos de lá eu tinha em torno de seis anos de idade. Tenho algumas lembranças fragmentadas extremamente nítidas daquela época.

Lembro um dia que o padeiro, que vinha em casa chegou lá. Ele tinha um grande cesto onde tinha muita coisa além de pão. Consigo ver o rosto da Estela a babá, negra retinta, recebendo ele e dele colocando a cesta no chão da área de serviço. Recordo da garagem e da vaga do carro. Lembro da mesa de jantar e das cadeiras de couro preto retas com tachas grandes e da da posição da televisão, assim como da apresentação de uma música com uma bolinha pulando mostrando a palavra que estava sendo cantada. Recordo do nome das três filhas da vizinha do térreo, que eram um pouco mais velhas que eu, Leda Laís e Léa e como a Laís foi uma das primeiras a despertar meu senso estético. Me vem à cabeça o conversível americano do namorado da mãe delas. 

Num outro apartamento no térreo eu estive muitas vezes quando era um bebê e outras tantas quando cresci a até depois que mudei de lá. Morávamos no sexto andar e quando eu bebê chorava e não parava ela me buscava e me levava para a casa dela e conseguia me acalmar. Mais tarde eu passei a chamá-la de Mãe Dulce. O marido era o professor Reinaldo, que uma vez me levou para uma aula de judô e os filhos Luiz Felipe e Ana Luisa que eram mais velhos que nós. O apartamento era escuro e me agradava a iluminação de um abajur sempre ligado e os muitos livros. Me vem à memória o cheiro dos livros.

Não sei quanto tempo depois que mudamos, o porteiro, seu Valter que morava no terraço do prédio e conseguia tomar um choque de 220 volts usando um alicate, se suicidou pulando de lá para a área interna do prédio.

Lembro de uma vez quando caminhando na volta do colégio que era o Coração Eucarístico na Rua Paissandu, (o prédio foi tombado e faz parte de um condomínio), que um inseto que chamávamos de lacerdinha entrou nos meus olhos e eles arderam. Evoco um dia de chuva quando fui com meu pai comprar leite num armazém do outro lado da rua. 

Mais velho me vem à mente um único encontro com Pelé no Fluminense, quando uma pessoa pediu que ele autografasse uma cédula e ele disse para a pessoa que assim ela não poderia gastar e teve a resposta de que para ela passaria a valer muito mais.

Não estou vendo isso tudo como saudosismo, mas apenas surpreso que esses fragmentos permaneçam com tal clareza.

Me alegram por terem feito parte da minha vida e são memórias agradáveis.

Só isso.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

TUDO ACONTECE DA FORMA CERTA

 


Faz uma semana que ando organizando o pensamento para passar dois dias numa pousada interessante, da qual um amigo mandou um vídeo que a colocou na minha lista. 

Eu tinha decidido que ia esta semana mas posterguei para depois do feriado da semana que vem. Estou com um assunto para finalizar que envolve lidar com muitos papéis e estou tendo uma trava psicológica com ele. 

Ontem chegou um móvel que vai deixar essa montanha de papéis organizada e bem à vista.

Num dos raciocínios eu poderia estar lá hoje. Mas adiei.

Hoje de manhã concluí um negócio que eu poderia ter feito de lá, e após isso apareceu um outro que para arrematar tudo da forma ideal era necessário que eu estivesse aqui. 

Eu que poderia não estar, estou.

domingo, 25 de outubro de 2026

FICAR CALADO

 


Estamos no dia do segundo turno da eleição para Presidente e vou fazer parte das abstenções.

Vinte e um por cento dos eleitores não votaram no primeiro turno. Nenhum dos dois candidatos me representa e mais triste ainda está sendo a falta de elegância dos dois além das interferências excessivas do judiciário.

Neste instante um amigo acabou de mandar mais uma figurinha fazendo campanha para o candidato de sua preferência. Ele não alcança que isso me irrita ao invés de me convencer. Depois daquele Linhas Cruzadas vejo como narcisismo achar que todos deveriam pensar como ele. 

Isso sempre foi uma coisa dele mas está piorando com a idade. Tenho tido muita paciência, mas hoje estou falando nisso e gostaria de parar por aqui.

Preferi ficar calado. De vez em quando tenho feito isso. 

Andei no carro caro de um amigo que tem um mês de uso e notei uma marquinha de uma pedra no parabrisa. Para que falar alguma coisa? Naturalmente ele viu quando aconteceu e gostaria que não tivesse acontecido. Se eu falasse naquilo só iria fazê-lo lembrar. 

Foi a segunda coisa que eu vi esta semana que preferi não comentar. Com certeza a pessoa vai saber através de outra pessoa. Estou preferindo dar as boas notícias.