Comecei há muito tempo a pensar como eu me encaixava num texto que eu havia lido mas aquilo ficou perdido para um dia como hoje.
O texto falava de como montamos uma narrativa através dos objetos que selecionamos para expor e que depois podemos tirar dali.
"O colecionador é o mediador da circulação dos objetos, movimentando seu ciclo de vida e morte (exibição e apagamento). É aquele que não apenas coleta, mas também o que investe suas memórias e afetos nesse corpo externo, construindo nele a extensão de sua existência."
Essa prática de colecionar foi, em diferentes textos, analisada por Walter Benjamin como um fenômeno da modernidade presente tanto no habitar burguês, quanto no ambiente urbano. O burguês coleciona objetos no interior de sua moradia como um antídoto ao anonimato da cidade, ambiente marcado pelas multidões, pelo apagamento da individualidade e pela intensa transformação (urbanística).
Ele se fecha em sua casa-estojo. Como Benjamin descreve no texto “Experiência e pobreza”, de 1933, essa relação entre indivíduo e objeto é representativa, o burguês investe memórias e afetos nele.
Eu tenho cada vez menos objetos, mas tenho muitas fotografias espalhadas em quadros pelas paredes.
As fotografias devem ser a forma de fazer a minha narrativa. Ali estão pessoas importantes para mim, algumas que já foram e outras que não fazem mais parte da minha vida, mas que tiveram sua importância. Algumas fotos de antepassados.
Lugares onde fui e de onde eu trouxe uma imagem que reflete bem o prazer que tive de estar ali. Partes da minha vida, lugares onde morei, carros que tive.
Umas poucas mulheres que fizeram parte da minha vida e outras tantas apenas porque a beleza delas me comoveu profundamente.
Mas, objetos eu tenho cada vez menos.
Fiz uma viagem de alguns dias agora e a única coisa que eu comprei numa lojinha de artesanato foram três conchinhas médias de cores diferentes para juntar com outras coisinhas do mar que tem numa mesinha.
Neste último fim de semana fui a um almoço onde encontrei muitos conhecidos que eu já fotografei e em duas mesas, com pessoas diferentes ouvi a mesma coisa: Que a foto mais bonita que eles tinham tinha era minha.
Espero que elas continuem fazendo parte das memórias e do afeto deles.
